Mozart

Às vezes deparo-me com uma pergunta frequente, uma pergunta que surge, inclusivamente, entre os músicos: Quem foi Mozart?

Toda a gente sabe que foi um grande compositor, mas a pergunta persiste: Quem é Mozart? O que é que ele fez? O que é certo é que Mozart praticamente não evoluiu. Não foi um visionário como foi Beethoven, não foi uma “bomba” na composição como foi Schoenberg, não tem praticamente características fortíssimas como os contratempos de Brahms ou as harmonias de Chopin.

Nova tentativa de resposta: Mozart era um génio. Eu sei. Todos sabem. Mas é mais uma frase feita, todos dizem mas efectivamente ninguém consegue explicar porquê. Já mil pessoas tentaram, musicólogos, instrumentistas, maestros… Podemos decorrer aqui em tentativas, em estudos feitos, dava para uma autêntica série de livros… Mas a conclusão seria a mesma: Isso ouve-se. Ou vê-se, visualmente, na partitura.

“Mas onde é que ele quer chegar?”, estão os leitores a perguntar. Já se supõe, pelo que disse acima, que não tenho a menor intenção de explicar passo-a-passo o porquê de o Mozart ter sido um génio. Não critico quem o faça, desde que o faça por gosto. Todos os caminhos vão dar a Roma.

A minha intenção é incluir essa personagem num contexto. Incluir a música dele num contexto, porque se há génios a compôr, certamente que há génios a pintar, a esculpir, a escrever…

Mas eu vou utilizar, como meio de comparação, outra arte, a qual aprecio imenso: A literatura.

Porque a música é como a poesia. Ouvem-se os sons, a rima, o ritmo, e no fundo há mil coisas que são incrivelmente mais belas do que o texto em si. Lindíssimo é quando estas se unem com o texto com uma delicadeza e com um toque divino. Mas também há aquilo que se vê, que se lê: A métrica dos versos, as estrofes…

Não sou bom a História da Literatura. Não sei se essa personagem já existiu na poesia, mas se não existiu, vai existir. Um poeta que escreva um poema sem apagar uma única letra, uma única palavra, e seja esse o resultado final. Um poeta que o diga sem qualquer erro de entoação, gramática, sintaxe, tudo. Um poeta que incuta silêncio em Charing Cross na hora de ponta. Um poeta que cale o mundo, que vá contra a maré e a derrube sem saber.

Existiu, ou vai existir um poeta assim. Porque todos os poetas fazem um esquema, escrevem blocos de notas inteiros, recolhem ideias, formulam hipóteses, consultam dicionários, enciclopédias… Para que tudo corra como eles querem. Para que a métrica resulte, para que os sons corram, as rimas funcionem. Os poetas fazem uma “moldura”, e encaixam nessa moldura um tema, um contexto, que não sai dali. E se sair, voltam ao início, voltam a tentar, tiram palavras, põem palavras, descobrem sinónimos…

E eu estou a falar de um poeta que não o faça. Estou a falar de um poeta que escreva tudo já emoldurado, sem pensar muito naquilo. Que escolha as palavras perfeitas que um qualquer poeta demoraria dois anos a escolher. Que faça o ritmo tão perfeito que invejaria qualquer um. À primeira, sem pensar.

Mozart é precisamente isso, na Música. É um príncipe, o príncipe do Clássico, o perfeito dos perfeitos. Um homem que não pensava, que contrariamente a todos os compositores até hoje, não riscava, não apagava, não corrigia. Um homem que apenas escrevia porque precisava de dinheiro, e a música era o que ele precisava. Escrevia à primeira, a métrica saía-lhe, as melodias eram pura e simplesmente divinais, o ritmo era arrepiantemente perfeito, a pulsação deliciosamente flexível e bela.

Ele foi mais alto, mais longe. Ele tem um Canon tão perfeito que pode ser tocado com a partitura ao contrário, ou seja, com as relações intervalares ao contrário e os ritmos também ao contrário. É como se na poesia existisse um poeta que sem pensar fizesse um poema que pudesse ser lido com as palavras ao contrário, fazendo na mesma o mais puro sentido.

E isso ouve-se. Ouve-se a perfeição, ouve-se a clareza, tão perfeitamente como se ela estivesse à frente dos nossos olhos. Entra-se em contacto com Deus, com o que raio signifique a perfeição.

É isso que acontece. Não preciso de saber porquê… Apenas dou graças a Deus por poder apreciar isto que Ele nos deu.

E para finalizar, aqui fica uma interpretação do 1º andamento do Divertimento K136 de W. A. Mozart, o Príncipe da Música.

Tocado por uma orquestra que não faço a mínima ideia quem seja, mas dirigido por um dos melhores professores e mestres violinistas de sempre, o Sir Menuhin.

Deixo ainda um pequeno aparte: Tal como as obras de Schubert, Bach, entre muitos outros, as obras de Mozart são todas catalogadas com um “K”. Por exemplo, este Divertimento é K136, enquanto que o Quarteto N.º7 é K160.

“K” vem de Köchel, um biógrafo musical, que dedicou o seu trabalho a catalogar cronologicamente todas as obras de Mozart.

Similarmente, temos o catálogo de Bach “BWV”, feito por Wolfgang Schmieder, cuja sigla significa Bach Werke Verzeichnis (“catálogo de obras de Bach”).

Muitos compositores influentes têm as suas obras catalogadas, principalmente aqueles que têm muitas obras possíveis de serem confundidas (como Haydn e as suas 112 sinfonias, Bach e as suas partitas, Vivaldi e os seus concertos).

Foi só uma pequena curiosidade, alguns amantes da música me perguntam frequentemente o porquê desse “código” que aparece logo a seguir ao nome das obras.

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