Deolinda
Estive, pois, ausente durante algum tempo. Embora eu não faça nada de jeito durante o ano inteiro, também fui de férias para Espanha.
E durante esta viagem tive oportunidade de ouvir uma pequena banda chamada Deolinda, da qual já tinha ouvido falar mas pura e simplesmente não liguei muito. Até porque um dos guitarristas tirou o curso lá na ESART, salvo erro. O que é provável, visto que a qualidade técnica do guitarrista é acima da média e mostra uma profunda instrução erudita. O que mostra ainda mais a qualidade da banda, pois entrar na música popular a partir da via erudita é tão difícil como entrar música erudita a partir da via popular.
Basicamente, criaram uma personagem chamada Deolinda, e todas as músicas são cantadas na primeira pessoa, pois é a própria Deolinda que canta e pensa, não é a banda. E aqui, logo no panorama da banda, aparece a primeira referência ao mundo português: A índole feminina. Fomos o primeiro povo a cantar em índole feminina, na música trovadoresca. E ao longo da história da literatura e da música portuguesa, a índole feminina sempre teve um papel muito activo. É daquelas coisas que são absolutamente portuguesas… Mas claro, ninguém sabe. Aprendi com uma professora de português, no meu 12º ano, apaixonada pelo que faz. Agradeço-lhe do fundo do coração.
Mas voltando ao assunto, aconselho a banda. Imenso. Primeiro porque foram capazes de, dentro do perfeito tonalismo popular da música portuguesa, elaborar de tal forma melódica, harmónica e ritmicamente, que se tornou algo completamente diferente, mantendo a índole popular. O carácter das letras ajuda também, pois está muito intimamente ligada à cultura portuguesa, falando da vida e dos amores habituais de uma rapariga lisboeta dos nossos tempos, acentuando aquele carácter tipicamente português, que nos faz arrepiar a cada segundo. Não é antigo porque musicalmente está evoluído relativamente às tradicionais músicas portuguesas. Mas mantém o carácter popular… É como despir a pele a uma serpente.
Fiquei seriamente surpreendido por conhecer a banda, e muito contente, porque embora se ligue o rádio e se ouça música cantada em português que me faz querer abrir um buraco e pôr lá a cabeça, há também música portuguesa, feita por portugueses, cantada em português, com uma qualidade que não é possível de se fazer noutra parte do mundo, com outra língua e outra cultura.
Recomendo, portanto. Uma banda muito boa, que me dá um prazer enorme de ouvir. Fico muito feliz quando a ouço, e espero seriamente que o projecto continue, e que muitos e bons grupos nasçam na sequência deste novo estilo, simples mas aberto à sociedade actual, sem o conservadorismo do fado e da música tradicional que já está ultrapassada no âmbito da música mundial.
Creio não ser necessário acrescentar um vídeo, basta procurar por “Deolinda” no youtube, há lá mil vídeos, todos a dar a conhecer o trabalho. Não se esqueçam ainda de comprar o CD.
Os meus profundos parabéns à banda, pelo seu magnífico trabalho.
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