Agora é que vão ser elas

A nova ministra da cultura é pianista. À partida foi uma coisa boa saber isto, porque sempre é melhor ter uma ministra da cultura que realmente percebe de cultura, do que um ministro cuja preferência musical são as três valsas para violino de Chopin (que muito provavelmente inventou naquele preciso momento).

Claro que o problema mantém-se: A cultura estará sempre na última das prioridades. E não se pode dizer que o anterior ministro fez pouca coisa quando todos sabemos que o orçamento de estado para a cultura foi de 0.3%, o que é ridículo. Mas cá para mim, fico mais descansado de saber que temos uma pianista a dirigir um orçamento que o nosso conhecido Sócrates nos prometeu ser maior.

No fundo, a cultura não está nas nossas mãos. A cultura está nas mãos do nosso PM, que:

- Talvez devesse começar a ter aulas de “como ouvir música” para perceber que o nível em portugal está a ir um pouco por água abaixo.

- Talvez devesse perceber que os músicos que estão a dar AECs não percebem peva de pedagogia, e muito menos aquela cambada de incompetentes que sai todos os anos das ESE.

- Talvez devesse perceber que é importantíssimo ensinar os seniores a ouvir música, porque se o pai não quer ir ao concerto, o filho também não vai.

- Talvez devesse perceber que não temos uma única sala de espectáculos realmente feita para música, e que a Casa da Música foi um estouro de dinheiro para uma sala que nem para ópera serve, e é pior que uma sala de teatro.

- Talvez devesse perceber que o ensino superior de música está a abarrotar de professores incompetentes.

- Talvez devesse perceber que uma grande percentagem dos alunos das escolas profissionais de música gostariam de ir para o estrangeiro, porque sabem que só no estrangeiro é que cumprirão os seus objectivos. Muitos não vão porque não têm dinheiro. Só mesmo por isso.

- Talvez devesse perceber que o estado ajuda com uns belos 0% na compra de instrumentos musicais, que não estão sequer perto do bolso das pessoas.

- Talvez devesse perceber que as provas para as orquestras profissionais só abrem quando os planetas se alinham, e normalmente só entra uma pessoa de entre centenas que concorrem.

- Talvez devesse perceber que todos os anos estraga o sonho de muitos músicos que gostariam de tocar em orquestras como profissionais… E não há público.

- Talvez devesse perceber que o povo português tem aptidões musicais muito acima da média europeia, e que TODOS os músicos estrangeiros que por aqui passam ficam pasmados com o nível cultural baixíssimo que este país tem, comparado com as aptidões do seu povo. Marc Tardue disse uma vez que os músicos com a mais cristalina musicalidade que já viu na vida… Eram portugueses.

E se for preciso mandar vir com tudo o que o PM faz para que ele perceba que a minha área está extremamente atrasada na Europa, eu fá-lo-ei. Não vou cruzar os braços, porque sou músico.

Governar bem é fácil. Basta ouvir, discutir, ponderar, argumentar, e finalmente tomar uma decisão com uma direcção diferente. Criticar é ainda mais fácil, e é nessa situação que eu estou e vou estar.

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