Falhei, creio, na minha intenção de comentar todos os debates que ocorreram. O que é certo é que se torna para mim impossível passar uma manhã inteira a solfejar aquilo que vou tocar nas 6 horas de ensaio à tarde. E roubar 50 minutos ao solfejo é demasiado tempo para aquele que eu posso efectivamente dispensar para escrever.
Logo, vou apenas comentar este debate, pois considero-o muito importante. E logo se verá se terei mais tarde tempo para comentar outros debates. Mas vamos lá começar:
1. O “rival do BE”: Bem, não entendo como é que alguns jornalistas dizem que houve um empate. O Partido Socialista enterrou-se até ao joelho neste ponto… Mas então que falta de consideração é essa para o PS pensar que “ou ganha o PSD ou ganho eu”? Quer dizer, aqui interessa só quem ganha, quem tem o tacho. O resto, a ideologia, a governação, não interessa. Por isso diz o Sr. José Sócrates que apela ao voto no PS, para que o PS se veja livre desses chatos que são o Bloco de Esquerda que estão constantemente no Parlamento a denunciar as calúnias e a porcalhice de leis que ali se criam, destinadas na sua maioria a beneficiar amiguinhos ou até os próprios deputados.
Ou seja, neste ponto alerto as pessoas para o seguinte: Deixar de votar Bloco de Esquerda para votar Partido Socialista significa livrar o Partido Socialista de uma data de deputados bloquistas que vão fazer em água a cabeça dos governantes para que se aprove uma lei justa para todos os portugueses, e não só para os amiguinhos que lá estão a legislar. Portanto não sejam parvos, se querem mudar o vosso voto do BE para o PS, que seja por outras razões.
2. Economia: Bem, esta foi genial. O PM “deixou cair” que o caso dos Contentores foi por ajuste directo. Como se o Francisco Louçã não fosse conhecido por ir pesquisar aos documentos mais recônditos e escondidos que existem, para retirar a verdade: Foram os próprios advogados da Mota-Engil que aconselharam que fosse por ajuste directo. Ou seja, o Governo entregou directamente, de mão beijada, um projecto eterno que vai dar milhões a um só empresário, enquanto isso seria suficiente para ajudar as famílias e aumentar as pensões. Acho que o Sr. José Sócrates vai demorar dois meses a engolir esta denúncia. Até já estava a tremer, reparem.
3. Propostas de governo do BE: Primeiro: Não é uma Esquerda radical. E se o Primeiro-Ministro diz isso, está a confessar em público a sua profunda ignorância no que diz respeito à Ciência Política e às ideologias da Esquerda. Pois, ele não é da Esquerda. Segundo: O Bloco de Esquerda não fez o programa para ir para o Governo. Fez o programa para influenciar o Governo! E só se pode influenciar com ideologias marcadas! Se eu dissesse que o BE estava muito perto de ganhar as eleições, aí sim o programa seria com certeza muito diferente. E tudo porque o BE é, e nos proximos quatro anos continuará a ser, um partido da oposição!
Note-se ainda que o Primeiro-Ministro tentou, no decorrer desta proposta, “empatar” tempo para o poder roubar ao seu oponente. Só para tentar travar o chorrilho de denúncias, e para tentar evitar que o BE esclareça as suas propostas, que como se vê são exequíveis e só iriam melhorar a situação económica do país. Note-se que o Francisco Louçã é um dos melhores economistas da Europa. Não é um pseudo-engenheiro. Cá para mim, eu confiava o assunto económico a um economista, não a um homem com o 12º ano.
4. Imposto sobre as grandes fortunas: O BE explica, e faz sentido. Uma pessoa que seja rica e que não trabalhe no duro como qualquer outra pessoa, tem de dar o seu contributo ao Estado. E um imposto sobre isso seria perfeito, seria obrigar esses ricos a dispensar 1% ou 2% da sua fortuna para o Estado. O que seria mais do que suficiente para aumentar as pensões, por exemplo. E porque é que o PS não concorda? Porque isso seria retirar dinheiro a eles próprios. Os ricos. E os ricos amam o dinheiro mais do que amam os outros.
5. Política Fiscal: O PM vangloriou-se, “nós é que somos bons”, etc. E apoia uma estupidez: Os mil benefícios fiscais aqui e ali. Em vez de um sistema económico simples. O PM até bebeu água… Deve ter suado bastante quando o Francisco Louçã tomou a palavra. E porquê? Porque o BE não defende mil benefícios fiscais. O BE defende que as pessoas tenham menos impostos, menos custos, menos propinas, livros gratuitos, etc. Coisas úteis que iam tornar a economia melhor, sem dar fortunas aos empresários. Porque há uma coisa que o PS não vê: A sociedade. E o BE vê a sociedade. O Francisco Louçã anda de metro e de comboio, como eu e tu. O José Sócrates anda de BMW com motorista e com mil guarda-costas. Ou seja, o Francisco Louçã sabe perfeitamente que mais incentivos fiscais não iam ajudar a classe trabalhadora. As pessoas estão-se a marimbar para os benefícios fiscais, as pessoas querem livros gratuitos, querem propinas gratuitas (ou pelo menos mais baixas), querem medidas palpáveis, que ajudem, que não estejam constantemente a atacar o bolso das pessoas!
E sabem que mais? O Estado ia ganhar mais, e as pessoas iam ganhar mais. Os benefícios fiscais são armadilhas, há sempre um pouco que se perde nessas complicações. Além de contribuir para a despolitização do país.
Mas isto envolve a sociedade. E o Primeiro-Ministro está tão envolvido no seu mundo cor-de-rosa que não consegue perceber isso. Tanto que o Francisco Louçã teve de explicar duas vezes, e mesmo assim não entrou. Só entra mesmo para as pessoas, porque as pessoas vivem e andam de metro, autocarro e comboio. E vivem NA sociedade. Para o Primeiro-Ministro isto não faz sentido… Ele não entende, e não é num debate que vai entender. Daí o Francisco Louçã dizer que à segunda fez, o explica com mais gosto ainda. Porque está a falar para um político que não sabe, mas as pessoas que o ouvem sabem e concordam.
6. Desemprego: O PS propõe mais investimento público. O que tem piada, porque foi precisamente aquilo que eles NÃO FIZERAM. Porque raio vou eu votar num partido que promete e não faz, e ainda tem lata para voltar a prometer? Mas adiante.
Ponto de divergência: O PS propõe que as pessoas estejam mais tempo a receber um subsídio de desemprego, para que passem mais tempo sem fazer nada, a ganhar dinheiro e a estourar a Segurança Social. O BE propõe que se aumente esse subsídio, que se auxilie as pessoas a encontrar emprego, qualificando-as COM QUALIDADE (e não com “novas oportunidades”, que só geram incompetência), sem que as pessoas necessitem de ficar três ou quatro anos a dar cabo do país sem fazer um esforço para trabalhar.
Portanto relativamente ao debate em si… Creio que contrariamente ao habitual, o líder do Bloco de Esquerda não esteve muito bem. É normal, o debate nem sempre corre bem. E portanto é do dever do partido e dos militantes bloquistas explicar aquilo que ficou por explicar, exemplificar, e auxiliar o partido.
Quanto ao Sr. José Sócrates, confesso que estou surpreendido. Surpreendido porque ele se preparou, mas surpreendido também porque mostrou que não vive no mesmo mundo do que eu, nem está minimamente interessado no bem comum. Apenas nele e nas empresas que ele apoia.
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