Tenho acesso, através da plataforma na qual funciona este blog, aos termos que as pessoas pesquisam, no google, a partir dos quais vêm ter a este blog. Normalmente costumo prestar atenção a isso. Há imensas pesquisas por “problemas sociais”, que direccionam para um post, outras sobre “música aquática”, outras sobre “política”, etc.
Mas hoje encontrei um curioso: “É muito tarde para ser músico?”. E é curioso primeiro porque nunca vi uma pesquisa tão singular. Segundo porque é uma pergunta que muitos fazem sem encontrar resposta. E Terceiro porque vai directamente ao centro da existência deste blog, porque é precisamente um ponto onde a música se integra no que a rodeia.
Porque o nosso Governo investiu na educação musical dos miúdos. O que é excelente, podemos passar a falta de educação e a porcaria de ambiente que se vive nestas aulas, e ver que realmente é possível ter gente com um 8º grau a dar aulas nas escolas primárias. Há um problema paralelo que é precisamente esse: Basta ter o 8º grau, pelo que há pessoas com um curso complementar normal a dar aulas dessas, e isso provoca bastante incompetência (na minha opinião esse tipo de aulas deveria ser dado unicamente por alunos de escolas profissionais e ensino superior). Mas à parte disto, o ensino articulado está realmente articulado, faz sentido, funciona bem e é gratuito. O ensino integrado é a inovação, e também funciona bem. E o ensino profissional pouco mudou, mas também está bom (embora faltem escolas profissionais no sul do país). E o ensino supletivo fechou. Vamos esquematizar:
- Ensino Articulado – Os alunos frequentam as disciplinas de música obrigatórias, e o resto das disciplinas numa escola pública. Terminam com o 12º ano em Música, e das disciplinas da escola pública apenas têm Português, Educação Física, Filosofia, e mais umas quantas.
- Ensino Integrado – Muito parecido com o ensino articulado, mas as disciplinas são dadas na mesma escola. Ainda não há muitas escolas neste regime, mas as que há funcionam muito bem, pois o curso funciona muito bem. Permite que até o 10º ano os alunos tenham uma relação muito próxima com a música, sem que não tenham de decidir muito cedo o que querem.
- Ensino Profissional – É o mais estrito de todos. São totalmente orientados para música, sai-se com o 12º ano em Música, e formam músicos excepcionais, com uma enorme experiência, músicos muito bons. É parecido com os outros dois regimes, mas este é mesmo destinado a músicos que decidiram cedo e querem ser muito bons.
Ora, quando tudo isto mudou houve uma grande manifestação, pouco coberta pela comunicação social, na qual os alunos e professores de música protestavam contra o fim de um outro sistema de ensino, no qual eu estudei: O ensino supletivo. Este sistema de ensino permitia que se estudasse simultaneamente no complementar de música e no ensino secundário.
Por um lado, houve coisas boas: Há mais progresso, porque os estudos não se dividem. Não há aqueles horários gigantescos das 8h às 20h devido ao número de disciplinas, por isso há mais calma e mais progresso. Por outro lado houve coisas péssimas: Obriga os alunos a decidirem seguir música muito cedo, com 15 anos.
Ou seja, daqui a 20 anos as coisas vão estar bem. Toda a gente vai ter mais cultura, vai gostar mais de música com mais qualidade, vai haver mais público, vamos finalmente subir no nível musical e cultural. Mas o problema é que hoje em dia as portas não estão abertas àqueles que decidiram aprender música, por gosto. E para esses aprenderem música têm de ter dinheiro. Muito.
Ou seja, se o meu pai quiser aprender música, apenas pode contar com o filho para lhe ensinar o pouco que sabe. Mas não pode aprender numa escola oficial, não pode ter um 8º grau e começar a tirá-lo com 50 anos. Ou melhor, pode no Curso Livre, que é caríssimo! A cultura não está aberta para toda a gente, e aí está o problema…
A música devia ser gratuita para todos. Aí está o porquê de eu ter sido sempre contra o fim do ensino supletivo. Porque o meu instrutor de condução gostaria imenso de aprender música, tem 50 anos… E não pode. Não tem direito porque não tem idade nem tem dinheiro para o fazer. E isto não é justo.
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